“ [e] s.m. qualquer substância que, tomada ou aplicada (em certas doses) a um corpo vivo, lhe destrói ou altera as funções vitais; vírus; peçonha; [reg.] embriaguez; [fig.] tudo o que corrompe moralmente; malignidade; pessoa má, intratável, maledicente; espécie de carbúnculo; [fig.] deitar em, atribuir uma intenção malévola a, julgar com malícia (Do lat. venenu-, «id.») ” – Dicionário da Língua Portuguesa.
Sempre ouvi dizer que o que não mata engorda. Ora, isto nada tem a ver com o que vou aqui escrever. Apenas não sabia como começar e achei que, como ia falar em veneno, integrar a palavra “mata” sorrateiramente não teria qualquer problema. Atenção: “mata” no sentido de morrer. Não de bosque ou arvoredo. Mata, de matar. Mórbido, eu sei. Mas se é de veneno que vou falar então talvez tenha de seguir essa direcção. Ou talvez não. Veremos o que me vai na alma.
Verdade seja dita. Veneno é algo do qual nos queremos manter o mais longe possível. A não ser que a intenção primordial seja mal-intencionada. Ou mesmo o suicídio. Mas isso são outros caminhos.
Veneno é venéfico. Para quem não sabe – maléfico (reparem bem nas voltas em que isto já anda, até as palavras rimam). Não há mais nada a dizer. Faz mal e é para manter longe da vista. E do coração. Por favor, longe do coração mesmo. Se não garanto-vos: é morte imediata. Dizem que não há certezas absolutas, mas que as há… E esta é uma delas.
Mas, como se pode perceber, esta palavra singular tem muitos mais sentidos. É possível entender essa pluralidade de significados. Afinal é raro uma palavra na língua portuguesa designar apenas uma coisa. Agora sei que, em vez de chamar bêbado a alguém fica mais elegante dizer que essa pessoa, pobre coitada, está envenenada. O português é de facto uma língua irreal.
Mas deixemo-nos de politiquices e avancemos. Outra consideração que sempre me disseram foi que a inveja é um sentimento muito indecoroso. “Veneno para a nossa alma”. Talvez. Por vezes, muito necessária para nos fazer abrir os olhos para a realidade, para nos fazer perceber que aquilo que idolatramos no outro pode não ser o necessário para a nossa vida. Que essa inveja, essa cobiça ou esse ciúme não valem a pena o esforço. Simplesmente, não são suficientemente importantes para envenenar a nossa vida. O que importa, sim, é observar. Observar bem, e tentar não cometer os mesmos erros. Para, a todo o custo, desenvenenar tudo o que é maligno. Interessante pensar que a palavra inveja deriva do latim invidia – o desejo de não ver – e hoje tem um significado de emulação - “um sentimento que nos excita para igualarmos ou excedermos outrem”. Essa vontade de não ver desvaneceu, pois parece que hoje tudo o que interessa é sermos como o outro ou mesmo melhor. Não sei o que aconteceu à vontade de ser único e singular. Eu bem que prefiro. Até porque assim é mais fácil afastar aquelas pessoas que nos querem mal e que nos julgam a toda a hora. Desafortunadas e veneníferas que querem tudo e todos, o que, meus caros, não é possível. Claro, depois dá mau resultado. Esperemos que não sigam aqueles caminhos mais sombrios e que não tomem a peçonha!
Então, o que se pode dizer? Somos uma sociedade de venenosos: corrupta e invejosa. Somos muitas vezes intolerantes ou demasiado orgulhosos para deixar a arrogância de lado. Todos os dias tomamos um pouco deste veneno que, infelizmente, embrenhou-se na nossa vida. Dispensava fazê-lo mas às vezes torna-se impossível, porque, mesmo inconscientemente, todos desejamos e temos vontades.
É fantástico pensar que um dia esta palavra significou poção mágica do amor, da sedução e do encanto. Quem diria? Se for esse tipo de veneno, então eu aceito. Bem preciso. Definitivamente.
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